Skip Ribbon Commands
Skip to main content
Navigate Up
Sign In
Você está em: Skip Navigation LinksBioGene / Media Center / Artigos

Artigos

15/08/2017

Manejo da Cigarrinha e dos Enfezamentos do Milho

A importância da cultura do milho vem crescendo a cada ano no cenário mundial. É a segunda cultura de importância na produção agrícola do Brasil, superado apenas pela soja. A produção esperada hoje é de mais de 88 milhões de toneladas, distribuídas entre duas safras (Fonte: CONAB - Março 2017).

Inicialmente concentrado nos estados do Sul, Sudeste e Goiás, a produção de milho expandiu por todo o país e foi a cultura que mais incorporou tecnologia nos últimos anos. Além disso, o melhoramento genético ajudou a desenvolver produtos adaptados aos diversos ambientes, ajudando a tornar a cultura uma alternativa economicamente viável.

A cultura do milho passou por várias mudanças no sistema de produção. Com o aumento do cultivo, ampliação na janela de plantio com safra e safrinha, adoção de técnicas como o plantio direto, sistemas de irrigação, não utilização de combinação de híbridos etc., propiciou o aumento de pragas e doenças inerentes à cultura. O dano econômico causado pelas doenças na cultura do milho no Brasil é muito grande. A mensuração destes danos é difícil e complexa devido à diversificação dos fatores que compõem os patossistemas.

Dentre os principais problemas ligados à área de fitossanidade, os enfezamentos têm uma grande importância nos danos causados ao milho nos últimos anos, principalmente nas regiões produtoras do Brasil Central.

Os enfezamentos são doenças sistêmicas, causadas por molicutes (classe Mollicutes), que se desenvolvem no floema das plantas. Esses microrganismos são procariontes móveis, espiralados ou não, e sem parede celular. As doenças causadas por eles diferenciam-se em duas por apresentarem sintomas característicos e os agentes causais também serem diferentes. O enfezamento pálido é causado por um espiroplasma (Spiroplasma kunkelii) e o vermelho é causado por um fitoplasma (Maize Bushy Stunt Phytoplasma). Ambos são transmitidos pela cigarrinha do milho (Dalbulus maidis).

O principal sintoma do enfezamento pálido são estrias cloróticas esbranquiçadas ou pálidas que se estendem da base para o ápice das folhas. Dependendo do material genético, estas estrias podem apresentar coloração mais amarelada (Figuras 1 e 2).

Figura 1 - Enfezamento Pálido

Figura 2 - Enfezamento Pálido

O enfezamento vermelho caracteriza-se por intenso avermelhamento da planta, seguido por seca a partir das margens das folhas. (Figuras 3 e 4).

Figura 3 - Enfezamento Vermelho

Figura 4 - Enfezamento Vermelho

É difícil a diagnose no campo, pois em algumas situações, apesar de infectadas por espiroplasma, as plantas podem apresentar sintomas de avermelhamento foliar e, dependendo do material genético, variar para um amarelecimento. Somente teremos uma melhor definição de qual doença se trata quando as plantas apresentarem apenas os sintomas de estrias pálidas amareladas, sem qualquer avermelhamento, pois estes são sintomas característicos de espiroplasma.

As espigas produzidas por plantas com qualquer uma das duas doenças, têm tamanho reduzido, mau enchimento de grãos e grãos “chochos”. Com variação entre materiais genéticos e, dependendo do momento de infecção, podem ocorrer outros sintomas como: proliferação de espigas; brotamento nas axilas das folhas; emissão de perfilhos na base das plantas; encurtamento de entrenós acima das espigas; má formação das palhas das espigas e proliferação de radículas. Dependendo do local de plantio, e do nível de resistência do hospedeiro, as plantas com enfezamento são colonizadas por outros patógenos, principalmente de colmo, provocando a quebra e acamamento de plantas. Essas doenças podem atingir 100% das plantas na lavoura, causando a perda total da produção (Figuras 5 a 7).

Figura 5 - Complexo de enfezamento

Figura 6 - Má formação da Palha

Figura 7 - Acamamento

A cigarrinha pode transmitir apenas um dos patógenos ou o complexo simultaneamente, assim como a planta de milho pode ser infectada por apenas um ou pelo complexo. Todos os três patógenos envolvidos neste complexo (Espiroplasma, Fitoplasma e MRFV) são transmitidos da mesma forma (Maize Rayado Fino Virus – Figura 9).

Figura 8 - Cigarrinha

Figura 9 - MRFV

Inicialmente, os sintomas desta virose são pequenos pontos cloróticos nas nervuras foliares que se coalescem formando riscas ao longo do comprimento das folhas. Amarelecimento e clorose podem ocorrer quando grandes áreas foliares são afetadas. Esta virose também pode causar enfezamento das plantas, mas os sintomas variam muito devido às infecções que ocorrem sempre junto com os enfezamentos pálido e vermelho. Em uma lavoura com alta infestação de cigarrinhas e alta severidade de enfezamentos, sempre encontramos sintomas desta virose. Os danos causados são menores que os causados pelos enfezamentos e são difíceis de serem mensurados no campo, pois sempre estão acontecendo em lavouras com sintomas de enfezamentos.

A cigarrinha pode transmitir apenas um dos patógenos ou o complexo simultaneamente, assim como a planta de milho pode ser infectada por apenas um ou pelo complexo. Todos os três patógenos envolvidos neste complexo (Espiroplasma, Fitoplasma e MRFV) são transmitidos da mesma forma. A Dalbulus maidis se alimenta e se reproduz apenas no milho. Migra de plantas adultas para plântulas, disseminando assim os molicutes (OLIVEIRA et al.,2003) e vírus. As plantas de milho infectadas nos estádios iniciais têm a fisiologia e nutrição afetadas pela doença, e expressam os sintomas na fase de produção (OLIVEIRA et al.,2003). Caso a infecção ocorra mais cedo em um material suscetível, os sintomas poderão ser vistos em estádios anteriores ao florescimento (3 a 4 semanas após a infecção) e maiores serão os danos causados pela doença.

Em áreas infestadas, os adultos da cigarrinha podem ser facilmente observados alimentando-se, preferencialmente, no cartucho das plantas de milho, (Figura 10). O inseto adulto se caracteriza por apresentar uma coloração parda a amarelada, com asas transparentes e com duas pontuações negras no dorso da cabeça (Figura 11). Mede cerca de 4mm de comprimento por menos de 1mm de largura. Outra característica desse inseto é a presença de duas fileiras de espinhos nas tíbias posteriores (último par de pernas). Os ovos translúcidos medem menos de 1x0,2 mm, e são facilmente vistos olhando uma folha de milho contra a luz. Após aproximadamente 7 a 10 dias, eles tornam-se leitosos e projetam, na sua extremidade, um tufo de microfilamentos visíveis com uma lupa manual (10X).

Figura 10 - Cigarrinha no cartucho da planta de milho

Figura 11 - Inseto adulto

As ninfas passam por cinco instares. São de coloração palha a amareladas, com manchas escuras no abdômen e olhos negros (Figura 12). Tendem a permanecer estáticas, alimentando-se na folha, e somente se movem se forem incomodadas (WAQUIL, 2004).

Figura 12 - Ninfas de Dalbulus maidis

As fêmeas produzem cerca de 14 ovos/dia, durante aproximadamente 45 dias de vida, e colocam seus ovos dentro do tecido da nervura central das folhas de milho (Figura 13).

Figura 13 - Ciclo biológico da praga Dalbulus maidis

A biologia da Dalbulus maidis é afetada sensivelmente pela temperatura. Abaixo de 20ºC não há eclosão de ninfas, entretanto, os ovos permanecem viáveis até a temperatura aumentar (Figura 14).

Figura 14 - Efeito da temperatura na biologia da Cigarrinha do Milho Dalbulus maidis

A gama de hospedeiros da cigarrinha Dalbulus maidis está restrita ao gênero Zea e às espécies anuais ou perenes de Teosinte, sendo considerada, portanto, uma espécie monófaga, ou seja, alimenta-se apenas de uma espécie, no caso o milho. Ocasionalmente, os adultos podem ser encontrados em outras espécies de gramíneas, mas é considerada uma praga específica do milho.

A cigarrinha Dalbulus maidis é encontrada em toda região tropical onde o milho é cultivado. A temperatura e a disponibilidade de hospedeiros (milho) no campo são fatores determinantes para a manutenção e explosão populacional da praga. A densidade média de inseto por planta varia muito em função do sistema produtivo de uma microrregião, e é influenciada diretamente pela temperatura. Dependendo da permanência do hospedeiro no campo, e ambiente propício para multiplicação, a densidade da praga pode ultrapassar 10 indivíduos por planta.

Não é comum verificarmos a campo, mas uma alta densidade de cigarrinhas pode causar danos diretos às plantas de milho, devido à sucção de seiva. Dependendo do estado nutricional da planta e da densidade de infestação, pode ocorrer murchamento e morte de plântulas recém-germinadas, além do aparecimento de fumagina, quando há alta densidade da praga.

A disseminação dos molicutes ocorre quando a cigarrinha, ao se alimentar do floema de plantas infectadas, adquire o espiroplasma ou fitoplasma juntamente com a seiva. Após um período latente de 3 a 4 semanas, em que os molicutes multiplicam-se no organismo do inseto, principalmente nas glândulas salivares, ela passa a transmiti-lo de forma persistente, ou seja, por toda a vida, diretamente para o floema de plantas sadias ao se alimentar destas. A coincidência entre o final de ciclo de lavouras infestadas e o início de ciclo de novas lavouras permite que as cigarrinhas migrem de plantas adultas infectadas para plantas jovens sadias, disseminando a doença.

A eficiência de transmissão do espiroplasma ou fitoplasma pela cigarrinha infectiva varia de acordo com o período de exposição ao hospedeiro. Quanto maior o tempo de exposição, maior a taxa de transmissão.

O uso de cultivares resistentes tem sido a principal estratégia para o controle de doenças em plantas. Entretanto, imunidade ao enfezamento vermelho e enfezamento pálido ainda não foi registrada, mas há diferenças significativas entre os híbridos comerciais disponíveis no mercado quanto à resistência aos patógenos transmitidos pela cigarrinha. Adequar a época de plantio, evitando plantios consecutivos e sobreposição de ciclos da cultura, evitar com que a emergência das plântulas ocorra em momentos de alta população de cigarrinhas, eliminar plantas voluntárias no campo que podem constituir na fonte de inóculo e “ponte verde” para a próxima safra, promover a diversificação de cultivares na área de plantio para minimizar possíveis prejuízos e evitar a adaptação de variantes do patógeno são medidas de suma importância a serem tomadas dentro de um manejo integrado tanto do inseto como dos enfezamentos.

Figura 15 - Medidas de manejo e controle de Dalbulus maidis

Os métodos culturais e químicos são os mais comumente utilizados no controle da cigarrinha do milho. A eliminação de plantas voluntárias, a realização de plantio mais cedo, em um menor intervalo de tempo possível, evitando os plantios sucessivos e contínuos, são medidas para evitar a sobrevivência do patógeno e, principalmente, dos vetores no campo. Como a cigarrinha é um inseto especifico do milho, a medida mais eficiente para diminuir ou evitar a explosão da sua população é a retirada do seu hospedeiro (milho) do ambiente.

O controle químico mais eficiente é o tratamento de sementes, propiciando a proteção das plântulas no período onde o ataque da cigarrinha traria maior dano direto e, principalmente, pela transmissão dos molicutes e vírus.

Embora não haja muito conhecimento sobre a ação dos inimigos naturais sobre a cigarrinha, sabe-se que vários têm potencial para serem usados e estão presentes no campo. Não há, ainda, inseticidas registrados para pulverização para o controle dessa praga, e o uso excessivo de produtos químicos através de pulverizações aéreas consecutivas, além de não ter um controle satisfatório, pode causar um desequilíbrio na população destes inimigos naturais e, consequentemente, na população do inseto. Para um melhor manejo do patossistema dos enfezamentos, é necessário que tenhamos um bom conhecimento sobre todos os fatores que fazem parte deste. Devemos conhecer o máximo possível sobre o ambiente onde vamos implantar a lavoura, principalmente sobre temperatura e umidade, que são fatores importantíssimos no desenvolvimento, tanto do inseto vetor, como dos patógenos. Sobre o hospedeiro que é o milho, devemos conhecer, principalmente, o ciclo e o nível de resistência apresentado pelos híbridos indicados para região. Precisamos ter informações sobre os patógenos envolvidos e sobre o vetor. Saber o histórico da região quanto à população da cigarrinha e o aparecimento de sintomas da doença. Com todas estas informações, dentro de um manejo integrado de pragas e doenças, é possível que se possa extrair o máximo da lavoura.

Referências

CONAB – Companhia Agrícola Brasileira. V.4 – SAFRA 2016/17
N.6 – Sexto levantamento – Março 2017.
MUNKVOLD, G.P., WHITE, D.G. Compedium of Corn Diseases. The American Phytopathological Society. Fourth Edition. 2016.
OLIVEIRA, C.M de; OLIVEIRA, E. de. Controle químico da cigarrinhado-milho e incidência dos enfezamentos causados por molicutes. Pesquisa Agropecuária Brasileira.v.38, n.3, p.297-303, mar.2007.
OLIVEIRA, E. de; OLIVEIRA, C.M. de. Doenças em Milho. Molicutes, Vírus, Vetores e Mancha de Phaeosphaeria. Sete Lagoas:EMBRAPACNPMS, 2003.
OLIVEIRA, E. et al. Enfezamentos, Viroses e Insetos Vetores em Milho- Identificação e Controle. Sete Lagoas: EMBRAPA-CNPMS, 2003.
WAQUIL, J.M. at al. Aspectos da biologia da Cigarrinha-do-Milho, Dalbulus maidis (Delong & Wolcott) (Hemiptera. Sete Lagoas: EMBRAPA-CNPMS,2004).
WAQUIL, J.M. Cigarrinha do milho: Vetor de Molicutes e Virus. Sete Lagoas: EMBRAPA-CNPMS,2004.

Autor: Elcio Alves e Josemar Foresti – Cientistas da DuPont Pioneer