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17/01/2017

Tecnologia e conhecimento: a evolução da soja nas últimas cinco safras

​Muito se comenta sobre como a agricultura no Brasil pode evoluir e se tornar mais sustentável. Pois bem, o exemplo pode vir da soja.

Considero pertinente o seguinte registro, sou engenheiro agrônomo com mestrado e doutorado em fertilidade dos solos e nutrição de plantas, fui pesquisador e chefe técnico da Embrapa Soja e também coordenador do Projeto Nacional de Pesquisa de Soja (PNP) durante cinco anos. O PNP era uma ação da Embrapa no qual eu tinha conhecimento de praticamente todos os projetos de pesquisas que envolviam soja no território nacional. Participavam da iniciativa intuições de pesquisa governamentais de âmbito nacional e estadual, universidades, fundações de apoio às pesquisas e também a iniciativa privada. Com isso, tive uma visão boa de como se desenvolviam os projetos de pesquisa que geravam informações, tecnologias e procedimentos para o cultivo da soja no Brasil.

Em 2010, passei a exercer a função de consultor para o programa Lavouras do Brasil do Canal Rural e, a partir de 2012, integrou a equipe do Projeto Soja Brasil. Com isso passei a ver o “outro lado”, ou seja, como estavam sendo usadas as tecnologias, como estavam contribuindo para o cultivo da soja e principalmente como os agricultores equacionam a problemática de se cultivar soja no Brasil.

Após cinco anos de participação no projeto Soja Brasil, observei de perto a postura dos agricultores, umas boas e outras nem tão louváveis assim. Isso foi possível porque a abrangência geográfica do projeto, desde a latitude 32º sul até 03º norte, nos dá esta chance de verificar. Outro fator é a enorme diversidade de comportamento dos agricultores em função de: região, tamanho da propriedade, objetivos, origens, migração, forma de assistência técnica recebida, postura diante de dificuldades (tanto técnica como financeira), maneira de administrar, visão de futuro do negocio, formação, equipe de trabalho, participação dos agricultores em eventos e de associações próprias das atividades e outras tantas.

Diante disso podemos afirmar que, nestes cinco anos houve mudanças positivas na forma de se cultivar soja no Brasil.

Cito algumas ações que estão contribuindo para o melhor rendimento da soja:

1 – Aumento do número de “associações” de agricultores. Unidos estes produtores conseguem: tomar decisões técnicas e econômicas, adquirir insumos e trocar informações. Uma atitude muito positiva destas associações, por exemplo, é a escolha de lotes de sementes nas revendedoras. Com isso, diante do problema de qualidade de sementes, agricultores conseguem ter um produto mais garantido.

2 – Não há na agricultura uma tecnologia definitiva. Ou seja, o uso contínuo de um material, com o tempo, se torna um problema. Neste sentido, crescem as áreas semeadas com soja convencional por razões diversas, como o custo, controle de plantas daninhas resistentes a agroquímicos de controle e, porque não, o prêmio pago pela soja convencional. Não deixa de ser uma atitude positiva considerando também que a soja convencional é tão produtiva como a transgênica.

3 – O controle de insetos pragas da soja não se resume a aplicações de inseticidas. É algo muito mais complexo. Habitam nas lavouras de soja mais de cinquenta espécies de insetos, alguns desses são predadores de lagartas e percevejos, e é necessário um equilíbrio no bioma da soja. A prática do Manejo Integrado de Pragas (MIP) tem como um dos fundamentos o uso racional de inseticidas. O entendimento dessa complexidade fez crescer o número de agricultores que fazem uso deste método e diminuiu o número de agricultores que aplicam inseticidas para o controle de percevejos antes do estádio de formação de vagens.

4 – O plantio direto, ou mesmo a cobertura dos solos garantem o êxito de várias tecnologias, isso porque a maioria das tecnologias é gerada pressupondo que a soja vai ser cultivada em plantio direto, com muita palha. Nessa linha, cresceu significativamente o uso da braquiária e do milheto como alternativas para a formação de palha, com consequente aumento da matéria orgânica nos solos e por sua vez, aumento da Capacidade de troca de cátions (quanto maior o CTC melhor), e controle de plantas daninhas.

5 – Os solos possuem uma grande quantidade de microorganismos, essenciais para a manutenção da fertilidade dos solos, importante para a decomposição de materiais verdes e fundamentais na solubilização de alguns elementos químicos que vão nutrir as plantas. Em função de solos descobertos, expostos a altas temperaturas, e a falta de umidade, há um comprometimento na quantidade de microorganismos que tem afetado muito o desenvolvimento da soja. Tomando conhecimento disto, agricultores têm buscado alternativas para recompor a fauna e a flora dos solos, com insumos fermentativos ou até melhor com processo de rotação de culturas e cobertura com palha, com o qual a recomposição é natural.

6 – Em varias propriedades agrícolas encontramos produtores atentos à correção do perfil dos solos, contratando, inclusive, engenheiros agrônomos especializados nesta tarefa. Com isso, esperam obter solos com uma distribuição uniforme de nutrientes, principalmente o cálcio (elemento responsável pelo crescimento das raízes). Dessa forma, o sistema radicular é mais profundo no perfil dos solos e sem impedimentos físicos e químicos, assim as plantas de soja se desenvolvem melhor com consequente rendimento competitivo.

7 – A oferta de informações sobre o clima aumentou nos últimos anos e agricultores passaram a programar a instalação das suas lavouras após a constatação das condições climáticas mais adequadas. Esse procedimento tem assegurado melhor desenvolvimento da soja.

De forma geral aumentou o profissionalismo na agricultura nos últimos tempos, assim como a busca por engenheiros agrônomos para atuar como consultores. Há também uma grande oferta de tecnologias, entenda-se aqui que tecnologia não é o uso em larga escala de insumos agrícolas, mas um procedimento para maximizar o uso de insumos.

Por fim, com trinta anos atuando como pesquisador e dirigente de pesquisas e mais oito como consultor do Canal Rural, cinco no Projeto Soja Brasil (que tem proporcionado a comunidade agrícola um conjunto expressivo de informações), podemos concluir que há um aperfeiçoamento na maneira de conduzir lavouras de soja no território nacional.